sexta-feira, 24 de fevereiro de 2023

 

As Influências Soteriológicas no Campo da Economia

 

PARTE 1

 

INTRODUÇÃO

Por: Benivaldo Nunes

 

Neste estudo analisaremos duas correntes da Soteriologia conectadas à questão econômica. É importante salientar que o estudo seguira o viés da escola de Analles, ou seja, analisará a ligação da doutrina soteriológica com a questão econômica - de forma interdisciplinar-. A teologia (não cientifica), a história (ciência humana) e a sociologia (ciência humana) serão empregadas.

 

 

 

 Livre Arbítrio  

 

No século IV d.C., o livre arbítrio foi motivo de debate acirrado na igreja cristã ocidental. Um monge da Bretanha chamado Pelágio passou a ensinar que o livre arbítrio era causa principal na salvação dos homens. Ele falava que todos os homens nasciam com o mesmo livre arbítrio de Adão antes da queda (posse non pecare). Sendo assim, os homens não tinham uma vontade corrompida pelo pecado e nem sua vontade era inclinada ao mal.  Como afirma McGrath:

Os opositores de Pelágio — entre os quais o principal era Agostinho — achavam que ele negava o real papel da graça divina no início e no prosseguimento da vida cristã. O pelagianismo veio a ser encarado como uma forma de religião que pregava a autonomia humana e que sustentava ser o ser humano capaz de tomar a iniciativa de sua salvação (MCGRATH, 2010, p.59).

 

Pelágio negava que a graça de Deus (χάρις τοῦ θεοῦ) fosse essencial na soteria dos seres humanos, para ele os homens podiam ser salvos pela sua capacidade volitiva, que não havia sido corrompida pelo pecado de Adão (אָדָם).

O pelagianismo foi considerado um ensino herético ao colocar o livre arbítrio dos homens como responsável pela salvação e não a graça de Deus.

Pelagianismo foi condenado como heresia no Concílio de Cartago em 1 de maio de 418 d.C. (GRUDEM, p.965).

Porém, o pelagianismo foi eclodindo de tempos em tempos na história eclesiástica, “e no século XVII ele ressurgiu por meio de um Jesuíta” (uma ordem fundada 1540 e denominada de Companhia de Jesus) chamado Luiz Molina”.

Dessa forma: Molina, um jesuíta espanhol, começou a renovar muitos dos erros pelagianos sobre graça e livre arbítrio, eleição e reprovação, e tópicos como esses. Contra ele, Alvarez, um dominicano em Roma, se opôs fortemente (BAILLIE, 2020, p.7).

Para o jesuíta Luiz Molina (1535-1600), havia como solucionar o impasse metafísico da onisciência de Deus e o livre arbítrio das suas criaturas (Imago Dei). Com a sua ideia de conhecimento médio (scientia media), Deus pode, se quiser, saber tudo o que suas criaturas fariam ao serem colocadas em circunstâncias de liberdade. Mas achou por bem não ser necessário usar seu conhecimento natural e nem seu conhecimento livre para saber as ações contingentes de suas criaturas livres.

 De acordo com (GOMIDES FREITAS, 2015): Molina consegue, portanto, preservar o papel da Providência divina sem retirar dos homens a responsabilidade moral por seus atos e escolhas, e, por conseguinte, a importância deles na salvação ou condenação eternas. É aqui que entra a influência pelagiana/molinista no campo da economia. O jesuíta Molina havia estudado na universidade de Salamanca. Mas qual foi a importância que esta universidade teve na idade média?

A universidade de Salamanca, fundada em 1218, carrega o peso de ser o centro de ensino superior mais antigo da Espanha, e o quarto mais antigo da Europa. É mais jovem somente que as universidades de Bolonha, Paris e Oxford, fundadas respectivamente em 1088, 1096 e 1170. Uma característica comum que une as quatro é que todas elas foram formadas por clérigos católicos do período medieval, em geral professores de moral e teologia, que compartilhavam das ideias escolásticas. (ESTRUZANI QUEIRÓZ DE MELO, 2019).

 

 

 

 

Segundo nos informa Helm (1994): Os defensores modernos do molinismo citam esta passagem bíblica para corroborar a ideia do conhecimento médio de Luís Molina:

À medida que seus proponentes buscaram suporte bíblico evidente para o conhecimento médio, eles usaram o exemplo de Davi em Queila registrado em 1 Samuel 23. A este ponto na narrativa bíblica, os Filisteus estavam atacando Queila. Davi perguntou ao Senhor se deveria ir à Queila para guerrear com os Filisteus e o Senhor disse que ele deveria. Os companheiros de Davi estavam com medo e então Davi perguntou uma segunda vez. Em Queila, com medo de que Saul o atacaria lá, Davi perguntou ao Senhor se Saul iria à Queila. A esta altura, lemos a seguinte conversa: "E o Senhor lhe disse: 'Ele virá'. E Davi, novamente, perguntou: 'Será que os cidadãos de Queila entregarão a mim e a meus soldados a Saul?' E o Senhor respondeu: 'Entregarão'. Então Davi e seus soldados, que eram cerca de seiscentos, partiram de Queila, e ficaram andando sem direção definida'" - 1Sm 23v11-13. Na concepção dos Molinistas, o incidente demonstrou o conhecimento médio na prática, pois mostra que o Senhor sabia o que aconteceria se certa ação livre acontecesse - eles suporam que Davi e os outros participantes estavam agindo com livre arbítrio no sentido libertariano. Deus sabia que se Davi escolhesse ficar em Queila, então os cidadãos de Queila escolheriam o entregar. Então Davi escolheu tomar uma ação evasiva e Saul escolheu desistir da expedição contra Davi quando soube o que Davi tinha feito. Deus sabia de tudo isso - e também muito mais - por Sua presciência (HELM, 1994, apud MONTEIRO, 2013).

Molina com sua epistemologia da teontologia/Soteriologia advogou a liberdade do comércio e o fim do monopólio sobre os impostos, dos preços e do mercado. Assim,

O jesuíta aplicou o conceito de liberdade humana e de livre arbítrio à sua visão de política e economia. É a partir desse ponto que Molina se reafirma como defensor do livre comércio. Ele entende que este modelo é justamente o que mais se coaduna com a liberdade que Deus concedeu ao homem. Por isso, se opõe a qualquer tentativa do poder político de regular preços e mercados. Como defensor da liberdade, ele também defendeu a legitimidade da propriedade privada e chamou o comércio de escravos de uma prática imoral (Luis de Molina - Biografia, quem é e o que fez - 2021 Economy-Wiki.com economy-pedia.com).

 

“Seu pensamento do livre arbítrio e soberania de Deus foi o responsável pela construção de seus axiomas advocatício no campo da economia”. Sendo ele provavelmente um grande influenciador do liberalismo econômico de Adam Smith (XVIII). Um dos que defende o molinismo atualmente seria o W.L. Craig, um dos maiores apologistas evangélicos dos USA.

 

Conclusão

 

A teologia, não sendo científica, influenciou várias áreas humanas, como a política, a saúde, a economia, etc. O livre arbítrio, defendido pelo jesuíta Luis Molina, influenciou o liberalismo econômico.

Molina concebeu o mundo como um lugar onde Deus mantém a soberania, sem prejudicar a liberdade das criaturas. O postulado do espanhol Molina sobre a presciência de Deus é rejeitado pelos católicos e reformados. Tanto os católicos e os protestante de linha reforma defendem a teologia clássica da presciência de Deus

 

 Referências Bibliográficas

 

BAILLIE, Robert. O antídoto contra o arminianismo. Natal: Nadere Reformatie Publicações, 2020

 

ESTRUZANI QUEIRÓZ DE MELO, Gabriel. Graça, fé e caridade: notas sobre o livre-arbítrio e a salvação no pensamento jesuítico. [S. l.], 17 abr. 2019. Disponível em: https://redalyc.org/journal/5863/586361733010/html/. Acesso em: 22 fev. 2023.

 

GOMIDES FREITAS, Ludmila. Graça, fé e caridade: notas sobre o livre-arbítrio e a salvação no pensamento jesuítico. [S. l.], 2 maio 2015. Disponível em: https://www.redalyc.org/pdf/4497/449748256010.pdf. Acesso em: 22 fev. 2023.

 

MONTEIRO, Denis. O que é Molinismo?. [S. l.], 24 ago. 2013. Disponível em: https://bereianos.blogspot.com/2013/08/o-que-e-molinismo.html. Acesso em: 24 fev. 2023

 

             GRUDEM, Wayne A. Teologia sistemática. São Paulo: Vida, 1999

 

Luis de Molina. Publicações Populares. Disponível em: Luis de Molina - Biografia, quem é e o que fez - 2021 Economy-Wiki.com (economy-pedia.com). Acesso em: 22 fev. 2023.

 

MCGRATH, Alister. Teologia Sistemática - histórica, filosófica: Uma Introdução à Teologia Cristã. 3. ed. São Paulo: SHEDD PUBLICAÇÕES, 2010. 646 p. ISBN 85-88315-34-

 


Autor:
Bacharel em Teologia Livre pela Faculdade Teológica Assembleia de Deus (2011) Graduado em Teologia pela Faculdade Evangélica (2011). Especialização em Hermenêutica pela mesma Instituição (2012). Licenciatura Plena em Filosofia pelo Instituto de Ciências Sociais e Humanas (2018). Pós Graduando em História do Brasil pela Faculdade Única (2021). E graduando licenciatura em Letras - Português e Inglês na Faculdade Anhanguera.

Professor no Instituto de Teologia Pesquisadores da Bíblia.

                                                     Os Cientistas do Século XVI           No século XVI ocorreram muitas transformações. En...