As
Influências Soteriológicas no Campo da Economia
PARTE
1
INTRODUÇÃO
Por: Benivaldo Nunes
Neste estudo analisaremos duas
correntes da Soteriologia conectadas à questão econômica. É importante
salientar que o estudo seguira o viés da escola de Analles, ou seja, analisará
a ligação da doutrina soteriológica com a questão econômica - de forma
interdisciplinar-. A teologia (não cientifica), a história (ciência humana) e a
sociologia (ciência humana) serão empregadas.
Livre
Arbítrio
No século IV d.C., o livre
arbítrio foi motivo de debate acirrado na igreja cristã ocidental. Um monge
da Bretanha chamado Pelágio passou a ensinar que o livre arbítrio era causa
principal na salvação dos homens. Ele falava que todos os homens nasciam com o
mesmo livre arbítrio de Adão antes da queda (posse non pecare). Sendo
assim, os homens não tinham uma vontade corrompida pelo pecado e nem sua
vontade era inclinada ao mal. Como afirma
McGrath:
Os opositores de
Pelágio — entre os quais o principal era Agostinho — achavam que ele negava o
real papel da graça divina no início e no prosseguimento da vida cristã. O
pelagianismo veio a ser encarado como uma forma de religião que pregava a
autonomia humana e que sustentava ser o ser humano capaz de tomar a iniciativa
de sua salvação (MCGRATH, 2010, p.59).
Pelágio negava que a graça de
Deus (χάρις τοῦ θεοῦ) fosse
essencial na soteria dos seres humanos, para ele os homens podiam ser salvos
pela sua capacidade volitiva, que não havia sido corrompida pelo pecado de Adão
(אָדָם).
O pelagianismo foi considerado um ensino herético ao
colocar o livre arbítrio dos homens como responsável pela salvação e não a
graça de Deus.
Pelagianismo foi condenado como heresia no Concílio de Cartago em 1 de
maio de 418 d.C. (GRUDEM, p.965).
Porém, o pelagianismo foi eclodindo de tempos em tempos
na história eclesiástica, “e no século XVII ele ressurgiu por meio de um
Jesuíta” (uma ordem fundada 1540 e denominada de Companhia de Jesus) chamado Luiz
Molina”.
Dessa forma: Molina, um jesuíta espanhol, começou a
renovar muitos dos erros pelagianos sobre graça e livre arbítrio, eleição e
reprovação, e tópicos como esses. Contra ele, Alvarez, um dominicano em Roma,
se opôs fortemente (BAILLIE, 2020, p.7).
Para o jesuíta Luiz Molina (1535-1600), havia como solucionar
o impasse metafísico da onisciência de Deus e o livre arbítrio das suas
criaturas (Imago Dei). Com a sua ideia de conhecimento médio (scientia media), Deus pode, se quiser,
saber tudo o que suas criaturas fariam ao serem colocadas em circunstâncias de
liberdade. Mas achou por bem não ser necessário usar seu conhecimento
natural e nem seu conhecimento livre para saber as ações contingentes de
suas criaturas livres.
De acordo com (GOMIDES FREITAS, 2015): Molina consegue, portanto,
preservar o papel da Providência divina sem retirar dos homens a
responsabilidade moral por seus atos e escolhas, e, por conseguinte, a
importância deles na salvação ou condenação eternas. É aqui que entra a
influência pelagiana/molinista no campo da economia. O jesuíta Molina havia
estudado na universidade de Salamanca. Mas qual foi a importância que esta
universidade teve na idade média?
A universidade de Salamanca, fundada em 1218,
carrega o peso de ser o centro de ensino superior mais antigo da Espanha, e o
quarto mais antigo da Europa. É mais jovem somente que as universidades de
Bolonha, Paris e Oxford, fundadas respectivamente em 1088, 1096 e 1170. Uma
característica comum que une as quatro é que todas elas foram formadas por
clérigos católicos do período medieval, em geral professores de moral e
teologia, que compartilhavam das ideias escolásticas. (ESTRUZANI QUEIRÓZ DE MELO, 2019).
Segundo nos informa Helm (1994):
Os defensores modernos do molinismo citam esta passagem bíblica para corroborar
a ideia do conhecimento médio de Luís Molina:
À medida que seus proponentes buscaram suporte bíblico
evidente para o conhecimento médio, eles usaram o exemplo de Davi em Queila
registrado em 1 Samuel 23. A este ponto na narrativa bíblica, os Filisteus
estavam atacando Queila. Davi perguntou ao Senhor se deveria ir à Queila para
guerrear com os Filisteus e o Senhor disse que ele deveria. Os companheiros de
Davi estavam com medo e então Davi perguntou uma segunda vez. Em Queila, com
medo de que Saul o atacaria lá, Davi perguntou ao Senhor se Saul iria à Queila.
A esta altura, lemos a seguinte conversa: "E o Senhor lhe disse: 'Ele
virá'. E Davi, novamente, perguntou: 'Será que os cidadãos de Queila entregarão
a mim e a meus soldados a Saul?' E o Senhor respondeu: 'Entregarão'. Então Davi
e seus soldados, que eram cerca de seiscentos, partiram de Queila, e ficaram
andando sem direção definida'" - 1Sm 23v11-13. Na concepção dos Molinistas, o incidente
demonstrou o conhecimento médio na prática, pois mostra que o Senhor sabia o
que aconteceria se certa ação livre acontecesse - eles suporam que Davi e os
outros participantes estavam agindo com livre arbítrio no sentido libertariano.
Deus sabia que se Davi escolhesse ficar em Queila, então os cidadãos de Queila
escolheriam o entregar. Então Davi escolheu tomar uma ação evasiva e Saul
escolheu desistir da expedição contra Davi quando soube o que Davi tinha feito.
Deus sabia de tudo isso - e também muito mais - por Sua presciência (HELM,
1994, apud MONTEIRO, 2013).
Molina com sua epistemologia
da teontologia/Soteriologia advogou a liberdade do comércio e o fim do
monopólio sobre os impostos, dos preços e do mercado. Assim,
O jesuíta aplicou o conceito de liberdade humana e de
livre arbítrio à sua visão de política e economia. É a partir desse ponto que
Molina se reafirma como defensor do livre comércio. Ele entende que este modelo
é justamente o que mais se coaduna com a liberdade que Deus concedeu ao homem.
Por isso, se opõe a qualquer tentativa do poder político de regular preços e
mercados. Como defensor da liberdade, ele também defendeu a legitimidade da
propriedade privada e chamou o comércio de escravos de uma prática imoral (Luis de Molina - Biografia, quem é e o que fez - 2021 Economy-Wiki.com
economy-pedia.com).
“Seu pensamento do livre arbítrio e soberania de Deus
foi o responsável pela construção de seus axiomas advocatício no campo da
economia”. Sendo ele provavelmente um grande influenciador do liberalismo
econômico de Adam Smith (XVIII). Um dos que defende o molinismo
atualmente seria o W.L. Craig, um dos maiores apologistas evangélicos
dos USA.
Conclusão
A teologia, não sendo
científica, influenciou várias áreas humanas, como a política, a saúde, a
economia, etc. O livre arbítrio, defendido pelo jesuíta Luis Molina,
influenciou o liberalismo econômico.
Molina concebeu o mundo como um lugar onde Deus mantém
a soberania, sem prejudicar a liberdade das criaturas. O postulado do espanhol
Molina sobre a presciência de Deus é rejeitado pelos católicos e
reformados. Tanto os católicos e os protestante de linha reforma defendem
a teologia clássica da presciência de Deus
Referências
Bibliográficas
BAILLIE, Robert. O antídoto contra o arminianismo.
Natal: Nadere Reformatie Publicações, 2020
ESTRUZANI
QUEIRÓZ DE MELO, Gabriel. Graça, fé e caridade: notas sobre o
livre-arbítrio e a salvação no pensamento jesuítico. [S. l.], 17
abr. 2019. Disponível em: https://redalyc.org/journal/5863/586361733010/html/.
Acesso em: 22 fev. 2023.
GOMIDES
FREITAS, Ludmila. Graça, fé e caridade: notas sobre o livre-arbítrio e
a salvação no pensamento jesuítico. [S. l.], 2 maio 2015. Disponível
em: https://www.redalyc.org/pdf/4497/449748256010.pdf. Acesso em: 22 fev. 2023.
MONTEIRO,
Denis. O que é Molinismo?. [S. l.], 24 ago. 2013. Disponível em:
https://bereianos.blogspot.com/2013/08/o-que-e-molinismo.html. Acesso em: 24
fev. 2023
GRUDEM, Wayne A. Teologia sistemática. São
Paulo: Vida, 1999
MCGRATH, Alister. Teologia Sistemática -
histórica, filosófica: Uma Introdução à Teologia Cristã. 3. ed. São Paulo:
SHEDD PUBLICAÇÕES, 2010. 646 p. ISBN 85-88315-34-
Autor: Bacharel em Teologia Livre pela Faculdade
Teológica Assembleia de Deus (2011) Graduado em Teologia pela Faculdade
Evangélica (2011). Especialização em Hermenêutica pela mesma Instituição (2012).
Licenciatura Plena em Filosofia pelo Instituto de Ciências Sociais e Humanas (2018).
Pós Graduando em História do Brasil pela Faculdade Única (2021). E graduando licenciatura
em Letras - Português e Inglês na Faculdade Anhanguera.
Professor no Instituto de Teologia Pesquisadores
da Bíblia.