segunda-feira, 28 de maio de 2018


O ANALFABETISMO DE JESUS
BENIVALDO NUNES LIMA[1]

Muitos têm dito que Jesus de Nazaré era um homem muito sábio como foi Confúcio[2] e Buda[3], e que ele foi um mestre da psicologia ,por fim, um grande líder religioso. O interessante é que as pesquisas que têm sido feitas nas últimas décadas apontam que Jesus não era nada mais do que um camponês e alguém que não sabia nem ler e nem escrever. 
Jesus foi um judeu pobre e analfabeto e que viveu na paupérrima Galileia[4] do século I d.C., numa cidade chamada Nazaré, a qual não havia sido mencionada nem pelo historiador judeu Flavio Josefo d.C., e nem pelo Talmude. “Flávio Josefo menciona 45 aldeias na Galileia, mas nunca Nazaré. O Talmud menciona 65 povoados, mas não menciona também Nazaré” (PAGOLA apud  SILVA, 2017, p.69).
Outro fator importante é a ideia moderna de que Jesus fosse um homem letrado já que ele como judeu teria estudado numa escola rabínica conhecida como sinagoga[5] na cidade onde ele teria vivido até os 30 anos na já mencionada cidade de Nazaré. Um texto muito empregado para ratificar de que Jesus sabia ler é o texto de Lucas e o texto de João ( Lc 4.16; Jo 8.8). Todavia, estas duas tradições textuais da alfabetização do galileu Jesus  não tem respaldo arqueológico conforme explica o doutorando em ciência da religião   Hamilton Castro:

No século I d.C., Nazaré era um povoamento judeu na região montanhosa da Galileia, distante das rotas comerciais. No entanto, escavações arqueológicas indicam um povoamento desde cerca de 2.000 a.C., na época de Jesus, os habitantes eram envolvidos com a agricultura e viviam em cavernas pobres, não existem registros arqueológicos de sinagoga46 em Nazaré conforme os evangelhos sinóticos mencionam (Mc 6,1; Mt 13,54; Lc 4,16)   ((THEISSEN; MERZ apud SILVA, 2017, p.69).

Sendo assim o verbo grego αναγνωναe ( anagnonae) ler em Lucas 4.16[6] não pode aplicado a Jesus, pelo fato de que em Nazaré não havia sinagoga, e levando em conta o contexto social que Jesus viveu  , sua família não podia ter tido condições econômicas para lhe oferecer uma educação. O texto de João 8.8[7] não pode ser utilizado para corroborar de que Jesus de Nazaré teria escrito algo no chão, já que este texto é visto pelos críticos textuais[8] como um texto que não consta nos melhores manuscritos do evangelho de João. Portanto o verbo grego εγραφον, ou seja, escrever, também não pode ser atribuído a Jesus, já que este texto não faz parte dos manuscritos mais antigos[9] do Evangelho de João.
  Outro fator para afirmar de que Jesus era analfabeto era o índice de analfabetismo na Palestina romana do século I que era muito alto “e bem ao contrário, a maioria deles, [os cristãos] , assim como a maior parte da população do império (incluindo os judeus), era analfabeta” (EHRMAN, 2015, p. 30 meu destaque). E Ehrman (2015, p.60) também destaca o qual era tipo de pessoa que podia ser alfabetizada no período que abarca o início da história do cristianismo e a história das primeiras cópias do Novo Testamento, ou seja, a Palestina do século I:

Visto que, obviamente, apenas pessoas instruídas podiam ser letradas e dado que alguém se instruir normalmente significava ter o tempo livre e o dinheiro necessários para fazê-lo (menos aqueles que eram alfabetizados como escravos), pode-se depreender que os primeiros copistas cristãos eram os membros mais altamente educados e ricos das comunidades cristãs em que viviam.

Sendo a família de Jesus da região da Galileia[10] e de uma aldeia chamada Nazaré[11] uma aldeia esquecível[12] e que vivia da agricultura ou qualquer trabalho manual[13] além da profissão que Jesus teria exercido um tekton para grega para carpinteiro (mas é provável que Jesus fosse um pedreiro), fazia dele alguém de baixa estatura social . A língua falada por Jesus era o aramaico ((Mc 5.41; 7.34; 15.34) e não língua a hebraica, e se ele falava o grego koiné isto indica que era um comerciante já que a língua grega era usada  para o comércio (business), Jesus não foi um comerciante e sim um pedreiro.   . E como Jesus não fazia parte do sacerdócio por não ter sido da tribo de Levi e nem por ter tido uma educação[14] numa escola rabínica[15]dificilmente ele podia ler algum trecho da Tanakh[16] em hebraico ou da Septuaginta em grego ( LXX ) como, por exemplo, a passagem do profeta Isaías ( Is 61.1-2) conforme mostra o texto de Lucas 4.17-19:
Foi-lhe entregue o livro do profeta Isaías; desenrolou-o , encontrando o lugar onde está escrito: O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou pela unção para evangelizar os pobres , enviou-me para proclamar a libertação aos presos e aos cegos a recuperação da vista , e para restituir a liberdade aos oprimidos e para proclamar um ano de graça do Senhor ( BÍBLIA DE JERUSALÉM, 2002).      .           
          
       O que chama atenção neste texto de São Lucas é que ele omite um verso de Is 61.1 ( curar os quebrantados de coração)  e coloca outro em seu lugar Is 35.5 ( se abrirão os olhos do cego) .                           Outra coisa que é preciso salientar é que os textos do evangelhos de Mateus e Marcos que junto com o evangelho de Lucas são chamado de evangelhos sinóticos e que narram que Jesus apenas ensinava em sua terra natal em Nazaré  e não mencionam Jesus lendo  mas apenas ensinando (ἐδίδασκεν)  como em Mateus 13.54 assim como no evangelho de São Marcos 6.2 . Hoje  arqueólogos  têm dito por meio de suas escavações que não existe vestígio de Sinagoga em Nazaré  na época de Cristo Séc I. Então pela lógica hegeliana  ( Tese, Antítese= Síntese)  Jesus não sabia ler , já que na sua  época não havia sinagoga em sua cidade natal. Jesus pela suas condições sociais não teve acesso a uma educação que era apenas para uma pequena elite social
  e religiosa ( saduceus e fariseus) na Palestina do século primeiro.  
E nas palavras de Reza Aslan, judeus como Jesus dificilmente falaria o hebraico e o grego de forma fluente:
O hebraico era língua dos escribas e estudiosos da lei, e estudiosos da lei, a língua do conhecimento. Camponeses como Jesus teriam tido enorme dificuldade em comunicar-se em hebraico, mesmo em sua forma original, razão pela maior parte das escrituras foi traduzida para o aramaico, o idioma principal do campesinato judaico: a língua de Jesus. É possível que Jesus tivesse algum conhecimento básico de grego, a língua franca do império Romano (ironicamente o latim era língua menos utilizada nas terras ocupadas por Roma)-, o suficiente, talvez, para negociar contratos e lidar com clientes, mas com certeza não o suficiente para pregar ( ASLAN,  2013, p.59-60).


Diante de tudo foi dito acima à conclusão que se chega é que Jesus pode ter sido um grande sábio como parecer demonstrar o sermão do monte (Mt 5-7) o qual faz parte da fonte Q ( tradição oral que antecede os evangelhos sinóticos) ou um líder religioso |ou Mashiach. Mas que ele era um homem letrado ou poliglota não coaduna com os fatores educacionais, linguísticos e sociais e históricos nos quais ele esteve envolvido, e se ele era Deus como afirma o Credo Niceno ( 325 A.D), ele não sabia ler e nem escrever. E se os teólogos afirmam que Jesus sabia ler por causa do texto bíblico de Lc 4.16 ou João 8.8 para eles a frase da música do cantor cazuza deve ser levada em conta : suas ideias não correspondem aos fatos.    

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ASLAN, Reza. Zelota: a vida e a época de Jesus de Nazaré. Tradução de Marlene Suano. Rio de Janeiro: Zahar, 2013.
Ibid., p.59-60

BÍBLIA DE JERUSALÉM.. Nova Edição, Revista e Ampliada. São Paulo. Paulus, 2002.

EHRMAN, Bart D. O que Jesus disse? O que Jesus não disse? Quem mudou a Bíblia e por quê? Tradução de Marcos Marcionilo. Rio de Janeiro: Agir. 2006.
Ibid., p. 60
Ibid., p. 73,75
Ibid., p. 71

LIVRO DAS RELIGIÕES. Tradução Bruno Alexander. São Paulo: Globo Livros, 2014.
LOPES, Reinado José. Como ele nasceu Deus. São Paulo: Abril, 2015.

MIRANDA, Evaristo E. De; MALCA, José M. Schorr. Sábios Fariseus: Reparar uma Injustiça. São Paulo: Loyola, 2001.

MONEY, Neta Kemp de. Geografia Histórica do Mundo Bíblico. São Paulo: Vida Nova, 1977.

PAROSCHI, Wilson. Crítica Textual do Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1993.

SILVA, Hamilton Castro. Jesus de Nazaré e a tributação romana: empobrecimento, endividamento e o impacto no ambiente dos camponeses a partir de marcos 12,13-17. Dissertação em Ciência da Religião-PUC. Goiás, p.132. 2017.
Ibid., p. 69   
Ibid., p.70

USARSKI, Frank. O budismo e as outras: Encontros e desencontros entre as grandes religiões mundiais. Aparecida, SP: Ideais & Letras, 2009. 

VINE, W.E. UNGER, M.F. WHITE, William. Dicionário Vine: O Significado Exegético e Expositivo das Palavras do Antigo e do Novo Testamento. Rio de Janeiro: CPAD, 2009.





[1] Benivaldo Nunes Lima é graduado em Teologia pela Faculdade Teológica Evangélica  de Brasília, e Pós-graduado pela mesma Faculdade em Hermenêutica , mestrando em Ciência da Religião na PUC-Goiás, e Docente de Teologia na Faculdade Teológica ITEBE e no Instituto Foco.   
[2] De acordo com a tradição, Confúcio nasceu em 551 a.C. em Qufu, no estado de Lu, China. Seu nome original era Kong Qiu, é só mais tarde ele foi batizado de Kong Fuzi, ou mestre Kong. [...] Como professor, Confúcio viajou por todo império chinês, regressando no fim da vida a Qufu, onde morreu, em 479 a.C.  Seus ensinamentos sobreviveram em fragmentos e ditados transmitidos oralmente por seus discípulos e compilados posteriormente em Os analectos e outras antologias idealizadas por estudiosos confucianos ( LIVRO DAS RELIGIÕES , 2014, p.75).
[3] De acordo com várias fontes, Siddharta Gautama viveu 560 a.C. e 480 a.C. Depois de ter-se tornado um buda, circulou por cerca de 45 anos em uma área de aproximadamente 400 quilômetros quadrados , situada na atual fronteira do Estado indiano de Bihar e o Nepal. Nesse período, atraiu um numero crescente de seguidores. Ao falecer, não deixou nenhum sucessor no comando de sua comunidade. Estava convencido de que esta se mostrava suficientemente coesa e preparada para se nortear meramente com base na doutrina até então elaboradora ( USARSKI, 2009, p.22-23).
[4] A mais setentrional das províncias ocidentais, compreendia todo território ao N de Samaria até ao monte Líbano, estendendo-se de E a O, entre o mar da Galileia e o Mar Mediterrâneo  e Fenícia. Coincidia essa região com território que coube às tribos de Zebulom, Aser, Naftali e grande parte de Issacar (MONEY, 1997, p.197).   
[5] A origem da sinagoga judaica deve, provavelmente, ser designada ao tempo do exílio do babilônico. Não tendo templo, os judeus se reuniam no sábado para ouvir a lei, e a prática continuou em vários edifícios depois da volta do exílio (VINE; UNGER; WHITE JR, 2009, p.995).
[6] Ele foi a Nazara, onde fora criado, e, segundo seu costume, entrou em dia de sábado na sinagoga e levantou-se para fazer a ‘leitura’ (BÍBLIA DE JERSUSALÉM, 2002, meu destaque).
[7] Inclinando-se de novo, escrevia no chão (BÍBLIA DE JERUSALÉM, 2002).
[8] Também teve destaque em que a paixão de Cristo, de Mel Gibson, embora o filme se concentre apenas nas últimas horas de Jesus (a história é tratada em um dos raros flashbacks do filme). Apesar de toda essa sua popularidade, o relato se baseia em apenas uma passagem do Novo Testamento, João 7:53- 8:12, e nem mesmo ali parece parte do contexto original. [...] Como, então, ela foi acrescentada? Há numerosas teorias acerca disso. Muitos pesquisadores pensam que provavelmente se tratava de relato bem conhecido que circulava na tradição oral de Jesus, que a certa altura foi acrescentada à margem de algum manuscrito. A partir daí, algum copista ou alguém achou que a nota marginal devia ser parte do texto e a inseriu imediatamente depois da narrativa que acaba em João 7:52. Deve-se notar que os outros copistas inseriram o relato em diferentes pontos do Novo Testamento - alguns deles depois de João 21:25, por exemplo, e outros, o que é bem interessante, depois de Lucas 21:38. Em todo caso, quem quer tenha escrito o relato, não foi João. (EHRMAN, 2009, p. 73,75).  
[9] Cf. PAROSCHI, 1993, p.47-49
[10] Camponeses da Galileia normalmente não eram letrados, assim como algo entre 90% e 95% da população do império romano ( LOPES, 2015, p.195).
[11] A ANTIGA NAZARÉ REPOUSA sobre o cume irregular de um morro batido pelos ventos na baixa Galileia. Não mais do que uma centena de famílias judias que vivem nessa pequena aldeia. Não há estradas, não  edifícios públicos. Não há sinagoga. Os moradores compartilham um único poço de onde tirar água fresca. Uma única casa de banho, alimentada por um fio de chuva captado e armazenado em cisternas subterrâneas, serve toda a população. É uma aldeia de camponeses em sua maioria analfabetos, agricultores e diaristas, um que não existe em nenhum mapa ( ASLAN, 2013, p.51).  
[12] João 45 Filipe encontrou Natanael e lhe disse: "Encontramos aquele de quem escreveram Moisés, na Lei, e os profetas: Jesus, filho de José, de Nazaré". 46 Perguntou-lhe Natanael: "De Nazaré pode sair algo de bom?" Filipe lhe disse: “Vem e vê” ( BÍBLIA DE JERSUALÉM, 2002).
[13] A família de Jesus era bastante pobre, uma família de classe trabalhadora. O relato mais antigo demonstra que Jesus era um τέκτων, tekton (Mc 6.3), uma palavra que normalmente é traduzida como “carpinteiro” ou “construtor”, embora possa ser utilizada em qualquer contexto onde as pessoas realizam trabalho manual, por  exemplo uma pessoa que trabalha com pedras, um pedreiro, ou uma pessoa que trabalhe com ferros, ferreiro. Para encontrar trabalho, Jesus precisava sair de Nazaré e percorrer os povoados mais próximos. É possível que Jesus tenha trabalhado em Séforis, capital da Galileia que ficava a cinco quilômetros de Nazaré. Por outro lado, alguns estudiosos entendem que não temos base real para tal afirmação (PAGOLA apud CASTRO, 2017, p.70). Assim, o Jesus histórico era uma pessoa que tinha uma ocupação das classes baixas (EHRMAN apud SILVA, 2017, loc.cit).         
[14] Sobre a educação de Jesus, alguns estudiosos pensam que existia na Palestina do século I, um sistema educacional obrigatório. Entretanto, essas informações são oriundas da Michna, do Talmude de Jerusalém e do Talmude de Babilônia, principais escritos da literatura rabínica. Todavia, a Michna foi concluída por volta do ano 200.  Aqueles que acreditam na existência de um sistema educativo generalizado no início do século I na Palestina baseiam-se principalmente no Talmude de Jerusalém, um comentário da Michna que foi concluído por volta do ano 400 (BERNHEIM, 2003, p. 55-56 e LEITE, 2006, p. 280- 281 apud SILVA, 2017, p. 71).
[15] Os fariseus, sensus lato numa primeira aproximação, foram os sábios rabínicos. Eles viveram, escreveram e pregaram, essencialmente, entre os séculos II a.C e II d.C. Em sua maioria eram pessoas de origem humilde e burguesia: carpinteiros , ferreiros, sapateiros , pescadores, policiais, pedreiros, tecelões, comerciantes etc. Eles tiveram uma atuação histórica decisiva no destino do povo judeu . O estudo da torá  e sua interpretação estavam em suas primeiras preocupações. Reunidos em pequenas comunidades, respeitavam todas as prescrições anunciadas pelos mestres e eram considerados modelos de piedade religiosa ( MIRANDA; MALCA, 2001, p23). 
[16] João 7.15 Admiravam-se então os judeus, dizendo: Como entende ele de letras sem ter estudado? ( BíBLIA DE JERSUALEM).

                                                     Os Cientistas do Século XVI           No século XVI ocorreram muitas transformações. En...